Tenho a concepção ideológica de não dar esmola. Seja por não ajudar a solucionar o problema, seja por condicioná-lo a comodidade, válido para jovem, adulto, até mesmo artista cênico; mesmo porque qualquer um que aprende habilidades manuais com tamanha destreza em tão pouco tempo merece ser chamado de artista. O problema sempre será mais profundo que essa ponta que aparece nos semáforos. Mas outro dia furtei-me de meus principios. Deve ser porque não resisto a um velhinho. Olhar idoso, voz idosa, com mão estendida, cortam meu coração em pedaços que mágico nenhum consegue juntar. Tentei ignorar, passei como se não fosse comigo aquela voz rouca daquela senhora sentada no meio da rua. Seu cobertor só cobria as pernas até a altura das coxas. Sua mão estendida, mesmo frente à minha indiferença, soou mais alto que qualquer palavra. Parei. Voltei. Das moedas que tinha no bolso nenhuma restou comigo. Ao entregar, percebo algo que tocou-me ainda mais. Além de idosa pedinte, o que já é um desespero para qualquer olhar otimista para o mundo, percebo que também é cega. Seu olhar reto no horizonte, agradecendo pela mísera doação feita,  comprovou minha suspeita. Tenho a desgraça de ver a imagem triste e depressiva de uma pobre miserável, impotente, em seu crepúsculo da vida. Feliz torna-se nesse momento essa senhora, que possui a singela graça de não ver minha humilhação e decepção diante do mundo e das pessoas, em que se permite ofertar comida e bom banho a alguns favorecidos, menos a ela. Não bastasse isso, ainda recebo um carinhoso “Que Deus te abençoe, meu filho”. Queria que todos fossem surdos; alimentaria ainda mais minha omissão diante da vida.

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