Desarmargar a vida

Para Sandra Oliveira

O ser humano é a faca de dois gumes. Apesar de decepcionar-me muitas vezes, tenho que confessar que é muito bom quando me admira. E o que mais me admira é sua capacidade de superar-se. E não falo somente de superar-se nas condições humanas, mas digo em criar algo a partir do inusitado. Quem diria que poderia pegar algo amargo e transformar em algo tão prazeroso! Em seu blog (http://apenasumavez.wordpress.com), Sandra confessa seu prazer pelo café e por tudo que ele representa. Eu digo mais, o café pode mudar o mundo. Imagina se tudo que fosse amargo pudesse tornar-se prazeroso? Como é amargo ver o sofrimento de uma criança fazendo malabarismo nos semáforos! Como é amargo vermos crianças mutiladas em cidades do Oriente Médio! Como é amargo vermos as favelas do Rio dominadas pelo narcotráfico e autoridades corruptas! Quem sabe um dia o ser humano utilizar-se-á sua inteligência para saborear a vida desarmargando-a. Hoje o café tem seu charme. O capuccino é o um senhor de terno que desfruta de finesa e requinte, assim como o popular cafezinho representa o brasileiro clássico que mata um leão a cada dia. O café é democrático. Queremos ver charme e democracia naquela criança-malabarista, naquele palestino mutilado, naquele morador da favela. Pois no fundo há uma esperança de superação, basta ver o sorriso no rosto deles ao tomar aquele cafezinho.

Desarmargar a vida

Bienal casa com Rubem

As vezes perdemos boas oportunidades para falar algo que queríamos muito a alguém. Ontem fui na Bienal do Livro e estive ao lado de Rubem Alves, escritor que admiro há longa data. Queria ter dito o quanto “O Retorno e Terno” foi importante pra minha concepção literária e modo de ver âmbito do relacionamento humano; ter dado aquele abraço naquele velhinho com olhar lacrimejado e coração romântico. Um educador que merece todas as homenagens possíveis em vida. Não fiz nada do que pretendia. O máximo que consegui, como pessoa tímida que sou, foi falar um simples “obrigado, Rubem”. Espero que tenha sentido toda minha gratidão e admiração nessas humildes duas palavras.

Bienal casa com Rubem

Por que coleciono?

Poxa! É sempre um prazer. Não sei descrever. No começo era carrinhos, depois passou a ser chaveiro. Já tive também moedas. Latinha nem se fala. Há pouco, decidi por DVDs, agora estou na onda dos livros. Colecionar parece ser uma atividade autista. É você e o objeto. Nem precisa expor pra ninguém. É um prazer de guardar algo que o faça bem. Talvez mais que isso, é guardar na memória algo que lhe traga significado. Deve ser característico de pessoas que não valorizam bens materiais, porque não coleciono a matéria, coleciono algo que está por trás dela.

Por que coleciono?

Roda Gigante e Suco Natural

Gosto de arroz carreteiro, carne de panela e frango com quiabo. Gosto de sentir o cheiro de terra molhada depois daquele toró no fim de tarde. Gosto de sair pra rua, olhar para o pôr-do-sol e sentir aquela brisa vinda do leste. Gosto do sorriso de uma criança que lhe oferece no meio da rua sem nem ao menos o conhecer. Gosto do abraço de quem realmente deseja te abraçar. Gosto de suco natural. É impressionante como o natural nessas horas torna-se sobrenatural. Acostumados com tudo que é fast, eletrônico e enlatado, o que antes era comum agora torna-se precioso. Por mais que o ser humano adquira cada vez mais conhecimento, é a natureza quem retém o verdadeiro conhecimento da vida. Ela ensina. Quando o sr. Geraldo de Alcantra, diplomata de respeito, decidiu passar uns dias em um modesto sítio de seu motorista, seu José, ele já imaginava todas as delícias que um dia ele deixou pra trás. Porém, quando sentou à mesa de dona Conceição, mulher de seu José, deparou com uma mesa composta de salgadinhos fritos e um suco de caixinha. Como bom diplomata, disse ao seu José: “Zé, por que me rebaixa a tanto?” Como uma roda-gigante, vivemos nesse dilema de novo século: quando chegamos na parte mais baixa temos a opção de pôr os pés no chão e sair para a realidade. Mas do alto, onde tem a vista mais bela, vemos a natureza nos limites da cidade. É lá no alto que contemplamos as coisas simples da vida. Como disse Jean Le Rond DÁlembert: “A simplicidade é a consequência natural da elevação dos sentimentos”.

Roda Gigante e Suco Natural

Necessitamos de sentimentos

Hoje atendi o seu J. Aos 67 anos, está internado no Hospital e briga (ou tenta conciliar-se) com seu coração, que não anda lá sendo muito amigo. Há pouco mais de 20 anos tornou-se habituado a sala de cirurgia e consulta com cardiologistas. Mas por trás desse coração inquieto há um coração repleto de sentimentos. No comando de uma organização filantrópica de renome no país, dedicou parte de seu dia ao auxílio de comunidades carentes. Admite que foi imprudente ao cuidar desse coração, tão importante para que esses pensamentos de caridade o tornem essa pessoa humilde e fascinante. Além de sua simpatia, trouxe-me algo de bonito naquela manhã. Disse-me que o Brasil necessita de conhecimento para que todos os problemas de saúde pública seja solucionados. Uma típica afirmação de que a solução está na educação. Acrescento e disse-lhe: como diz Leonardo da Vinci: “Todo o nosso conhecimento se inicia com sentimentos”. Não só conhecimento. O Brasil necessita de sentimentos. Sentimentos como os do seu J., que me fazem ter esperança de que ainda podemos ser melhores e fazer o melhor enquanto nosso coração, mesmo que inquieto, continuar a bater.

Necessitamos de sentimentos

Velhice e solidão

Sou apaixonado por Mário Quintana. Isso acontece há muito tempo. Ele diz que “com o tempo, não vamos ficar sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros”. Temos que vencer a solidão não somente no começo da vida, quando ultrapassamos uma barreira e somos amparado por uma mãe, mas também quando chegamos ao fim dela e somos desamparados pelos que nos rodeiam. Acostumados a andar em bandos, somos aos poucos renegados a andar em pares, quando por fim caminhamos sozinhos.  E o pior de tudo: perder a liberdade, pois como diz Clarice lispector, “quem ama a solidão não ama a liberdade”. É na presença dos meus que encontro minha liberdade.

Velhice e solidão