Pôr-do-sol

“Se é pra começar bem, comece grande”. Caso você seja adepto desse pensamento, desculpa. Não é de grandeza que meu primeiro post se apresenta. Devo ser meio excêntrico. Se me perguntar que momento mais gosto da praia direi que é do pôr-do-sol. Melancolia por melancolia devo estar mais perto de Nietzsche, esse sim sabia apreciar o crepúsculo com a tristeza que nele se tintura. Nem precisa ir muito longe no tempo. Rubem Alves escreve em uma de suas crônicas que prefere o outono a primavera porque lhe falta no segundo “aquela gota de tristeza, que mora em toda obra de arte”, e disse mais: “não encontro nela lugar para a saudade”. Vejo que não ando na contramão. Em Cidade dos Anjos, são eles que param todos os dias pra apreciar cada último feixe de luz. No filme, ganha um grande atrativo: ouvem também as palavras de Deus. Quiçá sentem saudades do Céu. Quanto estive no Rio, pude presenciar uma cena muito agradável. Ao final do dia, depois do último raio de luz, que não conseguiu mais desviar do mar, ouvi as palmas de mais de milhares de pessoas presentes na orla, todas retribuindo o que Deus dizia. Estava todas sentadas esperando exatamente aqueles instantes finais. Nesse momento, enquanto via aquela imagem perfeita no céu de Ipanema, realmente senti saudades. E tudo isso fez-me bem. Quanta pessoa triste expressava sua tristeza na ovação das palmas! Dona Maria sentia saudades da mocidade, principalmente daquelas pernas de Juliana, que fazia corrida ao redor da orla. Já Juliana não, essa sentia saudades do Fernando, que a trocou por uma bem mais gostosa. Zé do Côco sentia saudades de quando era mais barato comprar o côco pra revender. Já Cauã, neto de Dona Maria, sentia saudades de nada. Estava ali só esperando a avó parar de olhar pro céu e comprar sua água de côco.  Como um quadro que o artista vai desenhando, aquele pôr-do-sol vai se mostrando simples. Único. Talvez seja só eu e ele. Talvez ele nem seja tão simples assim, nem tão pequeno. Desculpa, acho que comecei mal. Comecei muito grande.

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