Acender velas

Hoje, dia 02 de junho, comemoro meu aniversário. Tanto riso, oh quanta alegria. Mais de mil palhaços no salão. Momento de compartilhar com os meus mais um ano de sobrevida. Apagar 27 velas e fazer desejos. Pena que sou adepto das idéias de Rubem Alves, portanto prefiro acender velas ao invés de apagá-las, como chama que nasce a cada nova celebração. Nesse dia, apesar de renovar as esperanças de um futuro bom, é tempo também de acertar o presente para que o passado possa ser vivido mais avidamente em nossos dias. Como diz Mario Quintana: “Nós vivemos a temer o futuro, mas é o passado que nos atropela” e “A saudade que dói mais fundo – e irremediavelmente – é a saudade que temos de nós”. Viver a vida e orgulhar dos seus atos presentes é um dom que deve-se almejar. E por falar nisso, aprecio muito dar presentes, ainda mais quando é util a quem recebe. Um significado especial?  Tantas pretensões por trás desse ato tão altruísta.

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Acender velas

Bienal casa com Rubem

As vezes perdemos boas oportunidades para falar algo que queríamos muito a alguém. Ontem fui na Bienal do Livro e estive ao lado de Rubem Alves, escritor que admiro há longa data. Queria ter dito o quanto “O Retorno e Terno” foi importante pra minha concepção literária e modo de ver âmbito do relacionamento humano; ter dado aquele abraço naquele velhinho com olhar lacrimejado e coração romântico. Um educador que merece todas as homenagens possíveis em vida. Não fiz nada do que pretendia. O máximo que consegui, como pessoa tímida que sou, foi falar um simples “obrigado, Rubem”. Espero que tenha sentido toda minha gratidão e admiração nessas humildes duas palavras.

Bienal casa com Rubem

Pôr-do-sol

“Se é pra começar bem, comece grande”. Caso você seja adepto desse pensamento, desculpa. Não é de grandeza que meu primeiro post se apresenta. Devo ser meio excêntrico. Se me perguntar que momento mais gosto da praia direi que é do pôr-do-sol. Melancolia por melancolia devo estar mais perto de Nietzsche, esse sim sabia apreciar o crepúsculo com a tristeza que nele se tintura. Nem precisa ir muito longe no tempo. Rubem Alves escreve em uma de suas crônicas que prefere o outono a primavera porque lhe falta no segundo “aquela gota de tristeza, que mora em toda obra de arte”, e disse mais: “não encontro nela lugar para a saudade”. Vejo que não ando na contramão. Em Cidade dos Anjos, são eles que param todos os dias pra apreciar cada último feixe de luz. No filme, ganha um grande atrativo: ouvem também as palavras de Deus. Quiçá sentem saudades do Céu. Quanto estive no Rio, pude presenciar uma cena muito agradável. Ao final do dia, depois do último raio de luz, que não conseguiu mais desviar do mar, ouvi as palmas de mais de milhares de pessoas presentes na orla, todas retribuindo o que Deus dizia. Estava todas sentadas esperando exatamente aqueles instantes finais. Nesse momento, enquanto via aquela imagem perfeita no céu de Ipanema, realmente senti saudades. E tudo isso fez-me bem. Quanta pessoa triste expressava sua tristeza na ovação das palmas! Dona Maria sentia saudades da mocidade, principalmente daquelas pernas de Juliana, que fazia corrida ao redor da orla. Já Juliana não, essa sentia saudades do Fernando, que a trocou por uma bem mais gostosa. Zé do Côco sentia saudades de quando era mais barato comprar o côco pra revender. Já Cauã, neto de Dona Maria, sentia saudades de nada. Estava ali só esperando a avó parar de olhar pro céu e comprar sua água de côco.  Como um quadro que o artista vai desenhando, aquele pôr-do-sol vai se mostrando simples. Único. Talvez seja só eu e ele. Talvez ele nem seja tão simples assim, nem tão pequeno. Desculpa, acho que comecei mal. Comecei muito grande.

Pôr-do-sol