6 horas

Quanto tempo dura a vida? Seis horas. Somente isso que separa minha presença de sua eterna ausência. Seu músculo cardíaco morre e minha saudade perdura. Tem momentos que meu coração acelera, bem que poderia ser um excesso de você em mim. Cada aperto no peito nasce um gene daquele que me criou e me geriu. Sinto sua falta, pai, e isso não tem duração. Seis horas que durarão uma eternidade.

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6 horas

Saudades

Do que realmente sentimos quando sentimos saudades? Acabo de assistir um filme bem interessante. Em “O Paraiso é logo aqui”, o personagem volta a sua casa de infância por uma razão específica, e ao entrar na sala que antes era seu quarto, ele diz a seguinte frase: não sinto nada. Entranho porque, apesar de não saber o que sentiria, com certeza alguma coisa deveria sentir. Quando retornei à uma cidade bem pequena no interior de minas, na qual morei quando bem criança, pedi para minha mãe me guiar até a casa que tinha somente recordação em fotos e histórias inesquecíveis. Quando cheguei lá, tive a seguinte percepção: pensei que fosse bem maior. Bem, ela está do mesmo tamanho, até do mesmo jeito por sinal, mas eu era bem menor. Claro que tive uma sensação gostosa, confesso; assim como quando sinto aquele cheiro que remete à época de infância; como quando encontramos aquele presente antigo dado por alguém muito especial. Lugares que um dia visitamos. Não que esse lugar nos dê o mesmo prazer que hoje. Não que esse presente hoje me sirva. De forma alguma. Pra falar a verdade, esse lugar nem me pertence mais. Não caibo mais nesse brinquedo, nessa blusa. Não me entretêm mais essas gravuras coloridas. Mas então por que me faz tão bem? Simplesmente, sinto saudades.  Não estou dizendo que devemos deixar de trazer pra mais perto o que sentimos falta. Mesmo porque tem algo de muito positivo nessa busca: sentimos que devemos crescer. Se hoje me parece pequeno porque eramos pequenos, é porque temos que renovar pra continuar crescendo, e só percebemos isso quando reconquistamos o objeto de nossa saudade. Sentir saudades é o  prazer sinto ao lembrar do prazer que sentia, e isso nunca vai mudar de tamanho. Pode passar o tempo, a saudade sempre vai me acompanhar. Não quero deixar de sentir saudades.

Saudades

Pôr-do-sol

“Se é pra começar bem, comece grande”. Caso você seja adepto desse pensamento, desculpa. Não é de grandeza que meu primeiro post se apresenta. Devo ser meio excêntrico. Se me perguntar que momento mais gosto da praia direi que é do pôr-do-sol. Melancolia por melancolia devo estar mais perto de Nietzsche, esse sim sabia apreciar o crepúsculo com a tristeza que nele se tintura. Nem precisa ir muito longe no tempo. Rubem Alves escreve em uma de suas crônicas que prefere o outono a primavera porque lhe falta no segundo “aquela gota de tristeza, que mora em toda obra de arte”, e disse mais: “não encontro nela lugar para a saudade”. Vejo que não ando na contramão. Em Cidade dos Anjos, são eles que param todos os dias pra apreciar cada último feixe de luz. No filme, ganha um grande atrativo: ouvem também as palavras de Deus. Quiçá sentem saudades do Céu. Quanto estive no Rio, pude presenciar uma cena muito agradável. Ao final do dia, depois do último raio de luz, que não conseguiu mais desviar do mar, ouvi as palmas de mais de milhares de pessoas presentes na orla, todas retribuindo o que Deus dizia. Estava todas sentadas esperando exatamente aqueles instantes finais. Nesse momento, enquanto via aquela imagem perfeita no céu de Ipanema, realmente senti saudades. E tudo isso fez-me bem. Quanta pessoa triste expressava sua tristeza na ovação das palmas! Dona Maria sentia saudades da mocidade, principalmente daquelas pernas de Juliana, que fazia corrida ao redor da orla. Já Juliana não, essa sentia saudades do Fernando, que a trocou por uma bem mais gostosa. Zé do Côco sentia saudades de quando era mais barato comprar o côco pra revender. Já Cauã, neto de Dona Maria, sentia saudades de nada. Estava ali só esperando a avó parar de olhar pro céu e comprar sua água de côco.  Como um quadro que o artista vai desenhando, aquele pôr-do-sol vai se mostrando simples. Único. Talvez seja só eu e ele. Talvez ele nem seja tão simples assim, nem tão pequeno. Desculpa, acho que comecei mal. Comecei muito grande.

Pôr-do-sol